Na última década, mais de 10 milhões de pessoas concluíram o ensino superior no Brasil, mas apenas 1 em cada 11 se graduou em áreas relacionadas à tecnologia. Comparado a outros países, estamos muito atrasados: na Alemanha, para cada 5 pessoas que se formam em direito ou administração, uma se gradua em tecnologia; na Índia, essa relação é de 3 para 1.
A projeção para os próximos anos é de crescimento acelerado em oportunidades, com a demanda por profissionais com habilidades relacionadas à criação e uso de tecnologias digitais chegando a 2,3 milhões e um déficit inicial de mais de 1 milhão de talentos, apenas no Brasil. Estima-se que a falta de talentos fará o país perder aproximadamente 4 trilhões de receita potencial, arriscando 1,7% de crescimento do PIB a cada ano, de acordo com estudo da Accenture.
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| Foto: Ilustrativa |
É uma corrida entre educação e tecnologia. À medida que sistemas e máquinas inteligentes remodelam a natureza do trabalho, as pessoas precisarão de habilidades totalmente novas. Quando a educação não acompanha a tecnologia, o país perde, as empresas perdem e as pessoas perdem. Principalmente, deixamos de criar soluções digitais com potencial de transformar a forma como acompanhamos nossa saúde, como nos alimentamos ou nos relacionamos.
Para sair desse nó, precisamos agir rapidamente e ressignificar nossa relação com a educação. O papel das empresas é fundamental neste processo, uma vez que as pessoas precisarão de capacitação contínua e o modelo tradicional de ensino tem uma visão parcial e limitada do processo. O World Economic Forum projeta que 52% da força de trabalho global precisará de requalificação até 2022, e a pandemia acelerou ainda mais essa necessidade.
É um desafio grande e que demora gerações para ser resolvido, na melhor das hipóteses. Mas as empresas precisam começar a agir imediatamente. Acredito que existam 3 caminhos imediatos para ação:
Investir mais em experiências de aprendizagem fora do convencional
A grande maioria das empresas ainda está presa no modelo convencional de treinamentos corporativos. Buscam criar "workshops" curtos para a alta liderança, com o argumento de que as pessoas não têm tempo, e esperam grandes retornos, mensurados diretamente no ganho de performance. Ou oferecem uma plataforma digital com milhares de horas de conteúdo, na maioria das vezes negligenciando a complexidade do processo de aprendizagem e confundindo volume de conteúdo com qualidade de educação.
Para o desafio da década, empresas precisam arriscar mais. Algumas ideias envolvem, por exemplo, colocar design thinking na sala de diretoria; fazer grupos de aprendizado que reúnam diretores, gerentes e estagiários, aprendendo juntos; trabalhar com treinamento simulatório para funções técnicas; transformar o processo de onboarding de novos colaboradores em um curso completo para acelerar o ganho de competências; por fim, aplicar novas tecnologias como realidade virtual e IA para tornar o aprendizado mais imersivo, envolvente e personalizado.
Cada pessoa importa, a soma delas transforma a organização
Nas últimas colunas, tenho mostrado a importância de se desenvolver um conjunto amplo de habilidades para que mais pessoas possam ajudar a resolver desafios complexos, transdisciplinares por natureza.
As empresas devem migrar a visão da educação dos colaboradores como uma função direta das necessidades imediatas da empresa, para incentivar colaboradores a continuarem aprendendo constantemente, ampliando suas habilidades e competências para que se tornem mais adaptáveis às mudanças que inevitavelmente acontecerão. O contexto da pandemia é bastante didático neste sentido.
Além disso, devem se basear menos em certificações e diplomas tradicionais para contratar e promover pessoas, e focar em modelos alternativos para avaliar o que a pessoa conhece e sabe fazer. Além de ser mais realista, isso pode aumentar a inclusão e diversidade nas empresas.
Capacitar pessoas em grupos minorizados
Na maioria das empresas, as iniciativas de desenvolvimento profissional têm maior foco em lideranças. É necessário apoiar os trabalhadores mais velhos, aqueles com cargos mais baixos ou os que podem ser mais vulneráveis socialmente.
As escolhas referentes a quem tem acesso estruturado a iniciativas de aprendizagem também faz parte das ações afirmativas que empresas podem realizar para diminuir a desigualdade na empresa e na sociedade. Nesse sentido, tenho visto empresas fornecerem novos modelos de financiamento (como subsídios) para incentivar planos pessoais de aprendizagem ao longo da vida.
Temos hoje a clareza de que a tecnologia pode ajudar a solucionar problemas estruturais, mas não existe inovação tecnológica sem pessoas aptas a desenvolvê-la, de preferência com responsabilidade, ética e empatia. As empresas podem e devem acelerar o desenvolvimento de pessoas para diminuir o déficit de talentos atual e agora é um bom momento para investir nisso. O desafio da década está posto - ele não foi causado pela pandemia, mas pode ser solucionado junto com ela.
Época Negócios







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